Publicado às 22h48
MarianoBarbacid é um dos nomes mais importantes da pesquisa em câncer no mundo, um
cientista com décadas de contribuição decisiva para a compreensão dos oncogenes
e que, recentemente, esteve à frente de um estudo promissor sobre câncer de
pâncreas, uma das áreas mais desafiadoras da medicina contemporânea.
Ainda
assim, em vez de discutir o alcance do trabalho, o rigor do método ou o que
essa pesquisa representa em termos de esperança e avanço científico, parte do
debate público preferiu se concentrar no rosto do pesquisador, transformando
uma condição visível em motivo de piada e tentativa de descredibilização.
O
que aparece em sua face é uma marca corporal, uma condição vascular que não diz
absolutamente nada sobre inteligência, ética científica ou relevância
acadêmica, mas que revela muito sobre a crueldade com que lidamos com aquilo
que foge do padrão.
Há
algo profundamente perturbador em perceber como, mesmo diante da ciência, ainda
operamos por um regime de julgamento estético, como se o valor do conhecimento
dependesse da aparência de quem o produz.
Esse
episódio escancara uma contradição difícil de ignorar: dizemos defender a
razão, a ciência e o pensamento crítico, mas seguimos reproduzindo
comportamentos que desqualificam pessoas pelo corpo, pela imagem, pela
diferença. A ciência avança, apesar disso. O que permanece em dúvida é se
nossos valores acompanham esse movimento ou se seguimos presos a uma lógica
rasa, incapaz de reconhecer grandeza onde ela de fato importa.
Arte
e texto profrapha.alves


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